sábado, 5 de dezembro de 2009

A origem, talvez o fim

Caso do Vestido

(Carlos Drummond de Andrade)


Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Seu Amor

(Gilberto Gil)

O seu amor
Ame-o e deixe-o livre para amar
Livre para amar
Livre para amar

O seu amor
Ame-o e deixe-o ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser

O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz

O seu amor
Ame-o e deixe-o ser o que ele é
Ser o que ele é

Versão desconhecido

Versão Doces Bárbaros

terça-feira, 8 de setembro de 2009

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Sei que há, entre um intervalo e outro, a morte de inocentes. Não há, no entanto, porque chorar por tantos corpos. Continuarão os genocídios enquanto permanecermos chorando. Há de existir certa brutalidade em nossos gestos, em nosso olhar, para que possamos cumprir o destino que tecemos.
Sei que retomo nosso diálogo depois de séculos passados, sei que não tens mais a mesma face, sei que não és a mesma pessoa. Sei que desististes dessa trama, largastes o bordado e foste ver o sol morrer.
Creia-me, senhora, muito pouco conhecias dessas artes. Foste uma amadora desde o início. Foste o que aprendeste a ser - tua fragilidade é o que combina com os decretos de tua pequena vila. Desagrada-me dizer, mas - estavas enganada. Porque não podias ver o que eu te oferecia, porque não podias traduzir minhas palavras.
Tu querias os quadros nas paredes quando passeávamos pelos museus. Estavas ainda muito presa às formas pictóricas da vida, querias combinar as cores para chegar aos gostos, mas não examinava com profundidade os que conseguistes na busca, jogando-se novamente sobre as cores.

Ressignifico, portanto, as letras, acrescentando a elas novas formas.
Olha em tua volta, ainda que estejas em sonho, observa o pouco de claridade que o mundo oferece a tua realidade onírica. Não havia desertos; os desertos são o meio arenoso de cobrir a história das florestas - a riqueza do que é vivo e apodrece.
Precisas examinar a história para que compreendas o papel da violência. Só ela pode aproximar-te de meu coração, se ainda queres o desejo. Só os teus gestos de brutalidade tocaram minha face. Somente tua agressividade chegou aos meus olhos. Precisas invadir as casas, como os terroristas e fazer tuas vítimas.
Precisas (porque já atravessaste os Portais) que tuas ações ergam-se à altura de tuas vontades; não te submetas às minhas armadilhas.
Nunca devias ter calado diante dos horrores dos meus atos. Também não me digas que já perdeste o passo, perdeste o fio, cansaste de tantos círculos secretos.
Sou bem fraco, não posso levar teu corpo sobre minhas costas; posso, como única arma, dizer-te a verdade: nunca começaste a lutar. Caminhaste em linha reta - entretanto eu não te disse que as trilhas eram tortas e havia muitas rodas de fogo pelo caminho?

10 litros

vinho
a cor que produz, uva
embriago-me com o líquido
salto entre tonéis
pego tua mão
rodamos
uva

um copo
logo virão mais dois
talvez nem haja tantos cálices
queria tingir tua boca
com o sabor
desse
suco

queria sim
tivesse cachos e cachos de uva
e os amassasse com teus pés, cor de ouro
iria se deliciar, com o líquido sobre teu corpo
e esmagaria entre dentes as sementes
fermentaria

porque foi sem pisar em minha morada
não te ofereço o suco o vinho a uva
te ofereço desenhos dessa cor,
com a qual um dia sonhou em beber o amor.

Poema desconhecido*

Você era a linha reta

Que sempre quis amar

o caminho mais rápido entre dois mundos.


Você era a trama tecida

Já bem formada, sem arestas, ou sulcos

Era a forma já acabada

Espaço bem construído

Que eu sempre quis tocar

o futuro para o qual os pés cansados seguiriam no final.


Agora que eu vejo

essa morte toda que carrega em si

Essa perfeição

Esses círculos

E vejo que esse é o amor

É o único amor:

Não o que houve entre mim e você somente

Mas o amor tal qual existe entre todos.


Enquanto foi o meu livro lido, terminado

História já contada, conhecida

E à qual voltaria sempre para novos deleites

Eu também, eu também

Sou livro fechado, marcado na penúltima página.

Para outro leitor.


O amor, parece, é sempre um desencontro.

O amor é sempre solitário.

E sempre assim.


* Não sei de quem é esse poema, esta em meu computador desde fevereiro de 2008. Talvez seja meu, talvez seja de um desconhecido. Não sei... Ando a tresvariar...

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Diálogo

Olhos os mortos: tão simples
e belos,
vejo-os sorrirem para o mundo
devassado pelas descobertas mais recentes.

Pudesse falar com esses defuntos
lhes perguntaria sinceramente:
há algo de bom nessa vida?

Os cadáveres sorriem somente.
Não leio em seus sorrisos lágrimas ou zombaria
Não leio tristeza ou paz.
A única graça de conversar com tais carcaças
é que elas respondem sempre sim.

À primeira pergunta: sim
Há algo de bom nessa vida.
À segunda: sim
O amor vale a pena.
Sim. Sim.
Aos que estão, como eu, habituados ao não
e com ele se acostumaram a dormir
todas as noites quentes e frias,
os mortos cansam um pouco.
Mas sorriem.

Confesso-lhes, meus queridos falecidos:
queria sorrir para a vida, como agora o fazem
deitados, serenos.
Não, não queria atravessar o umbral
juntar-me a vocês, não desejo.
Queria somente sorrir como vocês tranquilamente
o fazem.

Quando o meu amor se aproximasse,
não temeria perdê-lo na próxima esquina,
suportaria vê-lo agarrado aos vermes
(tais como esses que, nesse instante, os devoram)
e mesmo que ele sumisse por dois séculos
e depois de dois séculos regressasse
eu o receberia como na primeira noite
com esse mesmo sorriso.