terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Diálogo

Olhos os mortos: tão simples
e belos,
vejo-os sorrirem para o mundo
devassado pelas descobertas mais recentes.

Pudesse falar com esses defuntos
lhes perguntaria sinceramente:
há algo de bom nessa vida?

Os cadáveres sorriem somente.
Não leio em seus sorrisos lágrimas ou zombaria
Não leio tristeza ou paz.
A única graça de conversar com tais carcaças
é que elas respondem sempre sim.

À primeira pergunta: sim
Há algo de bom nessa vida.
À segunda: sim
O amor vale a pena.
Sim. Sim.
Aos que estão, como eu, habituados ao não
e com ele se acostumaram a dormir
todas as noites quentes e frias,
os mortos cansam um pouco.
Mas sorriem.

Confesso-lhes, meus queridos falecidos:
queria sorrir para a vida, como agora o fazem
deitados, serenos.
Não, não queria atravessar o umbral
juntar-me a vocês, não desejo.
Queria somente sorrir como vocês tranquilamente
o fazem.

Quando o meu amor se aproximasse,
não temeria perdê-lo na próxima esquina,
suportaria vê-lo agarrado aos vermes
(tais como esses que, nesse instante, os devoram)
e mesmo que ele sumisse por dois séculos
e depois de dois séculos regressasse
eu o receberia como na primeira noite
com esse mesmo sorriso.

2 comentários:

Eu mesmo disse...

As reticências dialogam os nossos medos para o público também assustado... ... ...

marcela primo disse...

§

Era só pra saber que estive por aqui. Que li e fiquei sem palavras.

§