Sei que há, entre um intervalo e outro, a morte de inocentes. Não há, no entanto, porque chorar por tantos corpos. Continuarão os genocídios enquanto permanecermos chorando. Há de existir certa brutalidade em nossos gestos, em nosso olhar, para que possamos cumprir o destino que tecemos.
Sei que retomo nosso diálogo depois de séculos passados, sei que não tens mais a mesma face, sei que não és a mesma pessoa. Sei que desististes dessa trama, largastes o bordado e foste ver o sol morrer.
Creia-me, senhora, muito pouco conhecias dessas artes. Foste uma amadora desde o início. Foste o que aprendeste a ser - tua fragilidade é o que combina com os decretos de tua pequena vila. Desagrada-me dizer, mas - estavas enganada. Porque não podias ver o que eu te oferecia, porque não podias traduzir minhas palavras.
Tu querias os quadros nas paredes quando passeávamos pelos museus. Estavas ainda muito presa às formas pictóricas da vida, querias combinar as cores para chegar aos gostos, mas não examinava com profundidade os que conseguistes na busca, jogando-se novamente sobre as cores.
Ressignifico, portanto, as letras, acrescentando a elas novas formas.
Olha em tua volta, ainda que estejas em sonho, observa o pouco de claridade que o mundo oferece a tua realidade onírica. Não havia desertos; os desertos são o meio arenoso de cobrir a história das florestas - a riqueza do que é vivo e apodrece.
Precisas examinar a história para que compreendas o papel da violência. Só ela pode aproximar-te de meu coração, se ainda queres o desejo. Só os teus gestos de brutalidade tocaram minha face. Somente tua agressividade chegou aos meus olhos. Precisas invadir as casas, como os terroristas e fazer tuas vítimas.
Precisas (porque já atravessaste os Portais) que tuas ações ergam-se à altura de tuas vontades; não te submetas às minhas armadilhas.
Nunca devias ter calado diante dos horrores dos meus atos. Também não me digas que já perdeste o passo, perdeste o fio, cansaste de tantos círculos secretos.
Sou bem fraco, não posso levar teu corpo sobre minhas costas; posso, como única arma, dizer-te a verdade: nunca começaste a lutar. Caminhaste em linha reta - entretanto eu não te disse que as trilhas eram tortas e havia muitas rodas de fogo pelo caminho?
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3 comentários:
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Disse.
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Mas, realmente, me ouviu?
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Nunca, eu acho. Por isso, fiquei... por isso, parti... há metáforas indecifradss, ainda... e talvez eu tenha medo de descobrir o que há por trás das cortinas.
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